Brasil já conta com ao menos 12 milhões de teletrabalhadores, garante Álvaro Mello

A SOBRATT (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades) realizará em SP
o I Fórum do sobre o tema em maio

Trabalhar a distância é uma tendência irreversível no mundo todo, inclusive no Brasil. Os motivos são muitos. Ninguém mais abalizado que o professor Álvaro Mello, presidente da SOBRATT (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades), para enumerá-los. “Segundo estudos internacionais, a produtividade de um teletrabalhador é de 20 a 30% superior à de seu colega presencial, em média. Somado a isso, questões como tempo de deslocamento, poluição e outras justificam essa modalidade de trabalho, que já incorpora, por baixo, 12 milhões de profissionais no País.” Devido a essa onipresença, o teletrabalho levanta questões complexas que serão debatidas no I Fórum Nacional de Teletrabalho, realização conjunta entre a ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos) e a SOBRATT marcada para 29 e 30 de maio próximos no auditório da Editora Abril em SP. Em entrevista exclusiva, Mello, que também coordena  o Centro de Estudos e Pesquisas  de Teletrabalho e de Alternativas de Trabalho e é presidente do ITA/LAC International Telework Academy, falou à reportagem sobre o evento e os principais desafios da área.

Alvaro MelloQual a relevância do I Fórum Nacional de Teletrabalho?

Trata-se do primeiro evento de peso do gênero no Brasil, a despeito de já ter havido um congresso e encontros menores sobre teletrabalho nos últimos 15 anos. Por ser organizado pela SOBRATT e ABRH Nacional, certamente terá grande repercussão, não somente na área de RH. Vale salientar que o interesse em realizar o fórum se justifica pela análise dos dados do teletrabalho que se fundamentam em  algumas  pesquisas, dentre elas a da consultoria Robert Half, feita com 1.876 diretores de RH em 16 países, onde quase 50% dos entrevistados brasileiros afirmaram que a concessão do benefício aumentou nos últimos três anos.

Quantos teletrabalhadores existem hoje no Brasil? Qual a tendência mundial?

De acordo com dados levantados pela SOBRATT, existem em torno de 12 milhões de teletrabalhadores,  predominantemente nas áreas de TI, comunicações, vendas. No entanto, deve-se levar em consideração que, hoje, qualquer atividade administrativa em uma empresa levanta, analisa e manipula informações utilizando equipamentos tais como smartphones, tablets e outros sem a necessidade de ser realizada em um local e horário fixos. Isso significa que, dependendo da forma como for interpretado, o teletrabalho abrange um número bem maior de pessoas. Dentro de três anos, o número de pessoas em todo o mundo que utilizarão dispositivos móveis para trabalhar atingirá a marca de 1,3 bilhão. Isso representa 32,5% da população mundial economicamente ativa. Em 2010, foi apurado que 1 bilhão de trabalhadores utilizavam smartphones e tablets para desempenhar suas atividades.

O fenômeno é mais presente em algumas regiões?

De acordo com levantamento, o maior crescimento acontecerá nos mercados emergentes da Ásia-Pacífico. Com exceção do Japão, cuja expectativa é de um decréscimo populacional, a região verá o maior crescimento desta tendência – o número de “mobile workers” deve subir de 601,7 milhões, registrados em 2010, para 838,7 milhões em 2015. A expansão é atribuída, além de ao potencial econômico, à crescente população de China e Índia.

Como está a questão da legislação no Brasil e o benchmark internacional?

Com a lei 12.551, foi reconhecida uma situação de fato, pois as empresas já praticavam mesmo informalmente a modalidade de trabalho a distancia. Ficou assim garantida a segurança jurídica. Logo, as empresas devem, como consequência desta aprovação, redefinir os seus modelos de gestão, como, por exemplo, sistematizando o controle das horas extras, diferentemente do modelo anterior quando o trabalho era somente realizado na sede da empresa ou na residência do funcionário. Para o trabalhador, com a aprovação da lei, foi reconhecido legalmente o trabalho realizado a distância, situação que não ocorria antes. Saliente-se que quase não têm havido processos trabalhistas decorrentes da utilização do teletrabalho nas empresas. Na América Latina , sobressaem-se como benchmark  na utilização do teletrabalho a Colômbia, Argentina e Costa Rica.

Que dizer sobre a vida do teletrabalhador?

O home office, outra denominação do teletrabalho, acontece nos casos em que os funcionários podem trabalhar por metas e objetivos e é muito comum na área de tecnologia, na qual os profissionais estão pouco acostumados com regras rígidas de horário. Para aumentar a produtividade, destacam-se algumas ações, como fazer uma reunião semanal, quinzenal ou até mensal, definir tarefas, cronogramas e deixar o funcionário trabalhar no ambiente onde ele se sente bem e no horário em que ele produz mais e melhor. Dentre os desafios para os profissionais, destacam-se: muita disciplina, trabalhar com metas, autogerenciamento e administração do tempo. É preciso, ainda, apoio familiar, distinguir vida pessoal e profissional e enfrentar alguns preconceitos.

Qual deve ser a atitude das empresas?

O percalço está na cultura organizacional, que ainda resiste a adotar o trabalho a distancia. Neste sentido, apontam-se  as resistências dos gerentes em adotar o teletrabalho em virtude do medo de perder o controle sobre o trabalho e o espírito de equipe. Também pesa a  segurança das informações face à ocorrência de vírus e vazamentos de dados confidenciais da empresa. Acrescento a falta de adaptação aos novos padrões de trabalho e de comunicações por parte de alguns e falhas em perceber os benefícios do home office para a empresa, colaboradores e para a sociedade em geral. Mas avançamos muito, até mesmo no serviço público. Cito casos como o TRF, TST, Serpro e outros órgãos que já aderiram ao sistema. Em São Paulo, ficamos sabendo das intenções do desembargador Renato Nalini, presidente do TJ-SP, em implantar o teletrabalho.

A tecnologia disponível no Brasil garante condições para o teletrabalho?

Atende a todas as condições para se implantar o teletrabalho aqui, pois temos dispositivos e aplicativos necessários. Assim, deve ser considerado que o teletrabalho avança dia-a-dia nas organizações e pode ajudar a melhorar a mobilidade urbana e a qualidade de vida dos empregados, contribuindo para a diminuição do trânsito, menor emissão de gases poluentes, aumento de produtividade, melhor qualidade de vida, dentre outros aspectos.